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Rugby, Maradona e Racismo.

O rugby é um esporte que, salvo em País de Gales e Nova Zelândia, tem um forte componente de classes colocado nele, é o esporte dos oficiais militares do Império Britânico, o que, por sua vez, significava ser de alguma nobreza, dado que os cargos de oficialato eram comprados.

 

Na argentina não é diferente. Uma imensa maioria dos atletas que se tornam Pumas são filhos das mais altas classes da Argentina, o que, inevitavelmente leva a uma falta de capacidade de se conectar com questões populares. Isso é verificado na indiferença oficial pela morte de Maradona, o herói villero, herói de uma argentina popular e unificada, tudo o que os rugbiers argentinos não são e ativamente rejeitam.

 

Na verdade, foi essa indiferença a morte do personagem responsável por dar uma nova identidade a uma Argentina pós ditadura, um homem venerado por milhões de argentinos, que simboliza tudo o que eles querem ver em campo – em qualquer esporte – que gerou a investigação que descobriu racismo a céu aberto como fato comum na vida de alguns pumas, incluindo o capitão, Matera além de Petti e Socino, todos prontamente removidos da seleção.

 

Um homem venerado por milhões de argentinos, que simboliza tudo o que eles querem ver em campo – em qualquer esporte

Racismo, como sabemos é um problema que atinge a toda a sociedade, mas não é coincidência que ele se manifeste de forma mais aberta e agressiva nas camadas mais abastadas da população. Além da natural falta de contato com negros e indígenas, ao menos em relações não hierarquizadas, o racismo é importante para manter as margens de lucro de muitos desses.

 

O caso da Argentina não me espanta, uma vez que a coisa mais racista que ouvi na vida foi em um terceiro tempo de um jogo de rugby. O veterano sul-africano, bêbado e soltinho não teve pudores para dizer que o fim do apartheid foi um absurdo, porque, agora, não havia quem cuidasse dos negros.

 

O rugby se orgulha em dizer que é um esporte de valores diferentes dos outros. De fato, o respeito ao árbitro e ao adversário são fundamentais para conseguir jogar um esporte de impacto. Mas não podemos cair na armadilha do elitismo desses valores, pois essa é a sua origem. Podemos ser rugbiers sem ser da elite e devemos ser antirracistas, sempre.

 

Texto opinativo de Alcysio Cannete – Advogado, ex-jogador do Niterói Rugby, apresentador do podcast político Lado B do Rio e militante do PCB. Reprodução sem edições.